Doar mais do que receber, ser mais do que ter, fazer mais do que falar. Há quem diga que confiar é ruim, que o sensato é ser interno e que não devemos esperar nada de ninguém. Bom, todas essas coisas funcionariam perfeitamente se não tivéssemos que nos relacionar, o tempo inteiro.

Depois de (outras) quarenta brigas com o próprio peito, e de me dispor a ser saco de pancadas desde o início da vida adulta, passei a acreditar no contrário. Angústia é fala entupida, meus senhores, e não conheço um ser fechado que não tenha milhares de dores sem explicação. O (verdadeiro) maior mal que enfrentamos é a falta de diálogo – “calma que o tempo resolve” é a lição dos fortes, a maioria, que se julga fraca (na minha concepção seres muito mais fortes), precisa provar diariamente que está viva, buscar novos motivos para acreditar, dar a volta em torno do próprio eixo e libertar a alma para recomeçar, entre um nascer do sol e outro.

Sei que isso tudo é lindo na teoria, que a prática é mais do inferno que do céu, até porque não somos “treinados” para sofrer sozinhos (nem que seja por uma unha encravada). Tudo que dizem por aí é que o bom é ser feliz e ponto, que “liberdade é mais importante que o pão”. Mas, mais uma vez, como isso pode ser tão fácil com o detalhe da convivência? Não dá. Não é tão simples assim. E em paz estão o que souberam reconhecer a dificuldade da vida e lidar bem com as perdas, ter fé que tudo que acontece vem para o bem. Eu, fraca (fraca mesmo), e com essa mania de me expor por aqui que ando, abro e fecho meu coração várias vezes ao dia, para conhecidos e desconhecidos. E que me julguem “a louca que fala da própria vida o tempo inteiro”, mas entre o sentimento de liberdade e o de jaula, o que fica é cada vez mais leal ao próprio corpo, e limpo. Bom, talvez esse seja o caminho certo, e talvez seja mais bonito do que as pessoas enxergam, pois ainda assim, vou dormir sorrindo (e você, apesar de tudo, vai?).

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Publicado em 12 de dezembro de 2011 na coluna “Segunda-feira e outras coisas” @ Mundo Ela